Sabe aquele discurso corporativo de que "trabalhar sob pressão faz parte do negócio" e que a equipe precisa "dar o sangue" pelas metas? Muitas diretorias ainda aplaudem gestores que lideram na base do grito e da cobrança irreal, achando que isso é sinônimo de produtividade. Mas a Justiça do Trabalho tem um nome diferente para essa prática: adoecimento ocupacional. E o preço por essa falta de gestão acaba de ser cobrado.
Se a sua empresa ainda acredita que esgotar o colaborador é a melhor forma de bater as metas do trimestre, recomendo que chame o setor financeiro para provisionar o risco.
O Tribunal Regional do Trabalho (TRT-23) condenou uma empresa após ficar comprovado que as cobranças abusivas e a pressão psicológica excessiva levaram um trabalhador a desenvolver a Síndrome de Burnout. O tribunal deixou claro que a exigência constante acima dos limites saudáveis gerou o esgotamento mental do profissional, configurando a responsabilidade civil da empregadora.
Quando o oficial de justiça bate na porta, a velha desculpa do "ele não aguentou o ritmo" ou "é problema pessoal" desmorona na primeira análise da perícia técnica. Sob a ótica da NR-1, o erro da diretoria é claro e atinge em cheio um fator de risco psicossocial crítico: Exigências de Tarefas e Sobrecarga de Trabalho.
Uma empresa que não calibra a complexidade, o volume e o tempo necessário para a execução das demandas não está gerindo um negócio; está operando uma máquina de adoecimento. Exigir entregas surreais sem dimensionar adequadamente a equipe ou os prazos é negligência técnica, pura e simples.
Demitir o colaborador adoecido achando que "cortou o mal pela raiz" é a pior cartada que a gestão pode tentar. Quando a perícia constata o nexo causal entre a pressão abusiva e o Burnout crônico, o passivo se multiplica ferozmente. A condenação não fica restrita apenas aos danos morais por assédio ou pressão; ela engloba danos materiais, despesas médicas, estabilidade e lucros cessantes. Uma única condenação dessas faz um rombo de dezenas (às vezes centenas) de milhares de reais. Todo o "lucro" gerado pelas metas agressivas é pulverizado na mesa do juiz.
Proteger a operação não significa parar de cobrar resultados, mas sim cobrar com método, viabilidade e governança. Como implementadora de NR-1, me preocupo muito ao observar a forma como as empresas lidam com a organização do trabalho e como ainda falta preparo técnico para entender o limite da produtividade humana. A ausência de um responsável capacitado para orientar a diretoria transforma a operação numa bomba-relógio.
Através de uma Avaliação Ergonômica Preliminar (AEP) estruturada, é perfeitamente possível diagnosticar o risco de sobrecarga, ajustar os processos internos e instituir limites claros de exigência. Isso garante que a empresa produza com alta performance, mas sem adoecer quem faz a roda girar e, o mais importante, blindando o caixa.
No fim do dia, gerenciar gente exige método e respeito aos processos estruturais do trabalho, e não terror psicológico. Como costumo repetir nos corredores: não é fofoca, é benchmarking.
Eduarda Bispo
A chata da firma que entende de gente, implementa a NR-1 e avisa antes do prejuízo bater na porta.
Fonte: TRT-23 - Burnout: Empresa é condenada por cobranças abusivas
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